Cerimónias e Rituais

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A Irmandade

Segundo a tradição é à  Irmandade da Misericórdia que compete organizar grande parte das seculares tradições da Quaresma e Semana Santa. Apesar da  perda acentuada  e envelhecimento da população, Proença continua a caminhar até à Igreja da Misericórdia e a realizar com respeito e devoção estes antigos rituais.


Liderada e representada oficial e estatutariamente pelo Provedor e respectiva Mesa Administrativa, é no entanto, segundo a tradição, ao Grupo dos Doze (os mais antigos da Irmandade) e aos que se lhe seguem os Catorze, que compete a orientação e coordenação de todas as actividades e rituais de cariz religioso que a Misericórdia de Proença continua a organizar, desde que há memória.

Essas cerimónias iniciam-se no primeiro Domingo da Quaresma e terminam no Domingo da Ressurreição, ou Domingo de Páscoa, depois de atingirem o seu ponto mais marcante na Semana Santa.


Merecem uma referência especial:


As Ladainhas realizam-se nos 5 primeiros Domingos da Quaresma, ao início da noite, e percorrem as ruas da povoação, passando pelos 7 Passos, assim localizados: 1º- Misericórdia; 2º - Espírito Santo; 3º- Igreja Matriz; 4º - Padre Eterno; 5º - Rua da Amargura; 6º - Stº António e 7º - Senhor do Calvário (Monte).

Frente a cada Passo o périplo pára para se cantarem e rezarem os Passos. Nos percursos intermédios canta-se, em latim, a Ladainha de Todos-os-Santos.

No Final da Ladainha, enquanto a maioria da população regressa a suas casas, formam-se dois grupos de cerca de uma dezena de pessoas, na sua maioria mulheres, que se dirigem para o cimo dos dois pontos mais altos da povoação, o cabeço do Senhor do Calvário e o cabeço do Castelo. Aí chegados cantam, de um lado para o outro, os Martírios.

No Domingo de Ramos não se realiza a Ladainha, cantando-se apenas os Martírios.


Quinta-feira Santa ao início da noite realiza-se, na Igreja da Misericórdia, a cerimónia do Lava-pés, após a qual se realiza a Procissão do Encontro, que é composta por dois cortejos diferentes:

O primeiro cortejo, no qual segue o andor com a imagem do Senhor dos Passos, juntamente com todas as insígnias e a maioria da população, percorre o mesmo trajecto das Ladainhas e vai parar no largo junto à Rua da Amargura;

 

<== Imagens das Cerimónias de Quinta-feira Santa

O segundo cortejo, composto apenas pelo andor de Nª Sª das Dores, ou das Lágrimas e pelo andor de S. João, acompanhados por muito pouca população (geralmente apenas algumas pessoas mais idosas), parte mais tarde, mas seguindo um percurso mais curto vai chegar à Rua da Amargura antes do primeiro cortejo e fica "escondido", ao meio da antiga Rua das Canastas, a aguardar pela sua chegada.

Depois de descer toda a Rua do Castelo e a Rua dos Loureiros a Procissão dos Passos pára ao chegar ao pequeno Largo formado na encruzilhada das Ruas já mencionadas. Aí, numa das varandas da antiga casa dos Condes de Proença, o Pároco convidado pela Irmandade vai proferir ao Sermão do Encontro, no fim do qual os dois cortejos se unem e seguem juntos até ao Monte Calvário, regressando finalmente à Misericórdia.

Durante todo o seu trajecto a Procissão do Senhor dos Passos é acompanhada pelo Cântico da Ladainha.

Uma vez chegados à Misericórdia é hora de se realizar o 2º sermão da noite, o Sermão da Morte, ou das 7 palavras, após o qual, já noite dentro, a população regressa às suas casas.

Na Misericórdia ficam os Doze para procederem à preparação do cenário do Passo para Sexta-feira. Depois de tudo organizado e de cumpridos os rituais a que estão obrigados, dirigem-se à sala anexa à sacristia para a Última Ceia, ou Ceia dos Doze.

No final da Ceia, lá para as 2 horas da manhã, os Doze (os mais novos de entre eles) acompanhados por alguns dos Catorze, ou outros Irmãos mais novos que por aqui ficaram, vão percorrer novamente as Ruas de Proença, seguindo o trajecto das Ladainhas, entoando o característico cântico do Lòvádsíssemo. O andamento acelerado com que este percurso se realiza, ao ritmo do cântico, impede que os mais idosos nele se possam incorporar. Ficam contudo na Misericórdia a aguardar até que cheguem os Irmãos que foram cantar o Lòvádsíssemo. Só então se dão por terminadas, madrugada dentro, as cerimónias de Quinta-feira Santa.


Sexta-feira Santa, uma vez mais ao início da noite, a Irmandade e a população em geral reúnem-se na Igreja da Misericórdia para realizarem a Procissão do Enterro do Senhor.

A Cruz Processional que abre o cortejo e que geralmente é ornamentada com um tecido branco, hoje vai envolta num pano negro. A Bandeira da Misericórdia e o Pendão que usualmente vão bem erguidos ao alto, seguem hoje deitados. Todos o s Irmãos e outras pessoas que ajudam no transporte de insígnias envergando trajes da Irmandade colocam o capuz na cabeça, mal saem à porta da Misericórdia para só voltarem a destapar-se quando a ela regressarem. Tudo isto em sinal de dor, de luto e de respeito, porque lá atrás, ao abrigo protector do Pálio, segue o Esquife com o corpo de Jesus, transportado por quatro dos mais antigos dos Doze.

Imagens das Cerimónias de Sexta-feira Santa

Seguindo o Esquife, de luto carregado, as três Marias e à frente delas  a Verónica,  totalmente vestida de branco.

O cortejo fúnebre percorre algumas das ruas de Proença, num trajecto mais reduzido que o do dia anterior, passando pela Igreja, Praça, Rua da Amargura, Corro e regressando à Misericórdia.

Durante o percurso, realizado no mais respeitoso silêncio, apenas se ouvem os passos dos transeuntes na calçada. Este silêncio irá apenas ser quebrado em momentos especiais, quando o cortejo pára. Aí a Verónica sobe para cima de um banco e entoa o plangente cântico da Verónica: "O vos omnes que transitis per viam, attendite et videte si est dolor sicut dolor meus". (A todos vós que passais pelo caminho, olhai e vede se há dor maior que a minha). Ao entoar as últimas notas deixa desenrolar o rolo de tecido que segurava nas mãos e exibe a todos os presentes o pano com as marcas do rosto ensanguentado de Jesus.

No final do cântico é tocada a matraca e é a vez de se fazer ouvir o coro lamentoso das três Marias: "Heu! Heu! Domine! Heu! Salvator noster!". (Ai! Ai! Senhor! Ai! nosso Salvador!).

De regresso à Misericórdia vai realizar-se o Sermão do Enterro, o qual terminará com a encenação da deposição do corpo de Jesus no Santo Sepulcro, por Nicodemos e José de Arimateia, representados por dois elementos dos Doze, encerrando-se assim as cerimónias de Sexta-feira da Paixão.

Os doze esses irão permanecer mais algum tempo, desmontando o cenário do Passo deste dia e preparando já o cenário para o Passo da Ressurreição. Só então poderão dirigir-se às suas casas

 


Domingo de Páscoa, os Doze juntam-se na Misericórdia e saem em Procissão festiva, ao toque do sino, até à Igreja Matriz, onde se lhes junta o Pároco e a população em geral, para a Procissão da Ressurreição.

Este cortejo sai da Igreja, passa pelo Largo da Praça, desce ao Cruzeiro e dirige-se à Misericórdia. Aqui é interrompido e os doze acompanham o pároco até à porta para este entrar e ir visitar o Santo Sepulcro vazio, do qual Jesus ressuscitou.

Imagens das Cerimónias de
Domingo da Ressurreição

Depois de incensar o Santo Sepulcro o pároco regressa e retoma-se a Procissão que subirá a Barreira do Açougue, atravessará o Corro, descerá a parte final da Rua de Stº António, subirá a Rua dos Loureiros e a Rua do Castelo, para descer finalmente a Rua Detrás do Castelo e regressar à Igreja, para a realização da Missa festiva.Durante todo o trajecto da Procissão homens e mulheres, alternadamente, irão entoar "os Aleluias".

Este cântico, a que hoje poderíamos chamar de minimalista, é constituído apenas por 4 versos em latim, que o pároco canta no início, passando depois a população a  repetir contínua e alternadamente, como dissemos, apenas os aleluias.

No final da Missa a Irmandade regressará de novo em Procissão até à Misericórdia. No final os Doze deverão acompanhar o Provedor até à sua casa , na qual lhes desejará as Boas-festas, oferecendo doces, o tradicional Bolo de Páscoa, vinho e jeropiga.

São já horas de cada um se dirigir ao seu lar para o tradicional almoço de Páscoa, ao que seguia noutros tempos a Visita Pascal, tradição que já há alguns anos por aqui se perdeu.


Para o ano o ritual deverá repetir-se, perpetuando a memória, as tradições e  os ensinamentos dos nossos antepassados.


 

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